Gaudí trabalhou em algo que sabia que não veria pronto
Visitei a Sagrada Família. Sobre construir certo para durar mais do que você — e plantar a árvore cuja sombra não verá.
Visitei a Sagrada Família em fevereiro de 2023. Sabia o básico antes de entrar: obra de Gaudí, em construção desde 1882, ainda inacabada. O que não esperava era a sensação de estar dentro de um projeto que atravessa séculos — e que cada pessoa que trabalhou nele aceitou contribuir para algo que não veria terminado.
Gaudí morreu em 1926 com a igreja longe de pronta, e sabia disso enquanto projetava. Mesmo assim deixou o cálculo, a lógica das formas e o método detalhados o suficiente para que outras gerações continuassem sem ele. É um tipo de ambição diferente da que estamos acostumados. Não é construir rápido para ver o resultado no próximo trimestre. É construir certo para que dure mais do que você.
O que mais me impressionou foi como conceitos de mais de cem anos atrás parecem atuais: estruturas inspiradas em formas da natureza, soluções de engenharia que só foram plenamente compreendidas com computador, décadas depois. Ele enxergava além do que as ferramentas do tempo dele permitiam executar.
Saí de lá pensando em quanto do que construímos é feito para o curto prazo — para inaugurar, mostrar, colher logo — e em quão raro é começar algo sabendo que o mérito maior talvez fique para quem vier depois. Vale para uma catedral, para uma empresa, para uma rede de infraestrutura, para um filho. As coisas que mais duram costumam ser plantadas por quem aceitou não ver a sombra da árvore.
Gaudí aceitou. Por isso, mais de um século depois, ainda se constrói ali — e ainda se aprende com ele.

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