O acordo acabou
O roteiro antigo era estudar uma vez, conseguir um emprego e esperar estabilidade por décadas está funcionando para cada vez menos gente. Uma reflexão sobre gerar valor num mundo que já mudou.
Tenho pensado muito nisso nos últimos tempos. Em parte porque comecei a conversar sobre o assunto com meus filhos e percebi que eles se sentem um pouco perdidos. Não por falta de nada. Perdidos porque alguns dos ambientes que os preparam ainda funcionam com um roteiro antigo, e outros já se atualizaram, e essa diferença confunde. Um lugar diz uma coisa, o outro diz o contrário, e ninguém explica que o chão mudou.
O roteiro antigo era simples. Estude uma vez, consiga um bom emprego, seja leal, suba devagar, espere estabilidade por décadas. Funcionou por muito tempo. Só que funciona para cada vez menos gente.
A inteligência artificial não vai fazer os empregos desaparecerem de um dia para o outro. O que ela faz é mais silencioso. Uma fatia grande das tarefas que as pessoas executam todo dia já está sendo substituída sem alarde, sem demissão em massa, sem manchete. Profissões inteiras vão minguando por dentro. O que antes exigia cinco pessoas, hoje uma faz. E isso não é previsão. Está acontecendo agora.
Digo isso de dentro, sem rancor. Estou do lado de quem toma esse tipo de decisão há bastante tempo. A empresa não existe para proteger a renda de ninguém. Existe para ser eficiente. Quando a tecnologia permite fazer com uma pessoa o que antes exigia várias, isso vai ser feito. Não por crueldade, por lógica. Quem não fizer perde para quem fez. Vários negócios estão mudando drasticamente, alguns exemplos são o varejo, as agências de viagem, a comunicação, estão desaparecendo no formato em que era décadas atrás. Estão sendo trocados, peça por peça, enquanto muita gente ainda se preparava para ocupar lugares que estão deixando de existir.
Vi isso cedo, ainda na juventude, antes de ter palavra para nomear. E hoje, com a inteligência artificial, ficou mais evidente do que nunca.
Aqui é onde quero ter cuidado, porque a conclusão fácil seria dizer que todo mundo precisa empreender, abrir o próprio negócio, virar dono de alguma coisa. Não é isso. A maioria das pessoas não vai empreender, e não precisa. O ponto é outro. A vantagem deixou de pertencer a quem acumula mais anos num cargo e passou a pertencer a quem consegue gerar valor de verdade, em qualquer ambiente, com as ferramentas que existem. Quem aprende o tempo todo. Quem se adapta. Quem constrói disciplina em vez de esperar motivação. Quem protege o próprio foco num mundo desenhado para roubá-lo. Isso vale para quem é empregado tanto quanto para quem não é, em qualquer atividade.
Quando a renda depende só de um salário, o futuro fica nas mãos de decisões que a pessoa não controla. Mas quando alguém desenvolve habilidades que geram valor onde quer que esteja, começa a recuperar uma parte desse controle. Não porque virou empresário. Porque se tornou difícil de substituir, e capaz de criar oportunidade onde antes só esperava por ela.
É isso que tenho tentado transmitir. Não uma certeza sobre qual profissão escolher, porque ninguém tem mais essa certeza. Mas a compreensão de que o terreno se move, e de que a coisa mais estável que existe é o que a pessoa se torna e o que ela é capaz de fazer.
Os próximos anos não vão recompensar quem espera o mundo mudar a seu favor. Vão recompensar quem se prepara para prosperar de qualquer jeito, não importa como ele mude.
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