Bati a meta e me senti mal
Corri 10 km abaixo de uma hora pela primeira vez — e me senti péssimo. Sobre a diferença entre atingir um resultado e atingi-lo bem.
Em 2020 corri 10 km em menos de uma hora pela primeira vez. E, em vez de comemorar, me senti péssimo.
Recuo um pouco. No fim de 2019 eu era sedentário, com a saúde já cobrando a conta — pressão alta controlada por remédio e um corpo dando sinais que eu vinha ignorando havia tempo. Comecei devagar: caminhadas curtas, que doíam. Fui progredindo, com orientação (boa parte dela da Shana, que é educadora física), e em poucos meses a corrida virou rotina; a pressão, inclusive, estabilizou.
Então estabeleci a meta dos 10 km em 60 minutos. Bati. No número, perfeito. Na prática, eu tinha forçado além do que o corpo aguentava — terminei no limite, com a mente arrastando o corpo até a linha. Cumpri o desafio e não senti nada de vitória. Senti que tinha trapaceado comigo mesmo.
Foi aí que caiu a ficha de algo que vale muito além da corrida: existe diferença entre atingir um resultado e atingi-lo bem. O primeiro é só o número na tela. O segundo é chegar lá inteiro — corpo e mente no mesmo lugar, de um jeito que você conseguiria repetir amanhã.
Mudei a abordagem. Continuei evoluindo, mas decidi só registrar os 10 km de novo quando pudesse fazê-lo me sentindo bem, no controle. Algumas semanas depois consegui — mesmo tempo, experiência completamente diferente. Dessa vez foi inesquecível, e não pelo cronômetro.
Levo isso para os negócios o tempo todo. Bater meta no grito, queimando o time e comprometendo o trimestre seguinte, é como cruzar a linha arrastando o corpo: o número aparece no relatório, mas não é resultado — é dívida. Resultado bom é o que se sustenta e se repete. Esse, sim, ninguém esquece.
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